caos 19

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O caos não deve ser o refúgio de conforto dos cristãos. Afinal, foi a partir do caos que Deus maestralmente deu suas ordens, e tudo se organizou. Foi para anular o caos que o Cordeiro de Deus morreu em nosso lugar, o hoje temos paz. E mesmo sendo o caos que éramos, a graça docemente nos alcançou e a infinita bondade e misericórdia de Cristo nos concedeu a esperança da eternidade.

Para as pessoas que souberam para onde vão, e tiveram as boas notícias de que sequer quando morrerem será o fim, não existe motivo algum para o caos.

Para as pessoas que souberam que de fato existe um Deus, e de que nada escapa de sua vontade, nem mesmo um suposto desenho caótico de uma pandemia, não existe motivo algum para o caos.

Veja, não estou dizendo que a paz, que nos dá o conforto e segurança quando entendemos o que é viver em submissão a vontade de Deus, deva nos persuadir ao descuidado com as medidas que nos são dirigidas pelos nossos governantes. Também não estou dizendo que devemos ser passivos quanto às nossas responsabilidades pessoais e sociais, ou irresponsáveis. Isso não demonstra submissão a vontade de Deus, mas burrice. Você não provoca um acidente só porque o seu carro tem seguro.

Pois se esse é de fato um cenário caótico para toda a humanidade, algo absolutamente atípico e que dissemina o medo, que grande oportunidade temos para que, intencionalmente por nós, cristãos, consigam perceber a paz em toda nossa maneira de agir, e como nada disso pode abalar aqueles que sabem que nem a morte, nem a vida, nem poderes ou quaisquer outras coisas, incluindo doenças, podem nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Salvador.

E ainda quero deixar mais cristalino tocando em outros pormenores desse pensamento. Também não se trata sobre essa nossa resiliência ao que está acontecendo. Não é sobre a nossa capacidade de mostrar a nossa bravura e como somos bons fazendo aquilo que é nossa obrigação fazer. Se vangloriar por responsabilidades intrínsecas aos cristãos é infantil. 

Mas se trata de deixarmos visíveis em nós que não somos, de fato, nós, mas se é aquele que em nós habita. Renúncia de si, não motivada por apenas conseguir renunciar, mas para que haja exaltação do Outro em nós. É lembrar dEle durante o esquecimento de nós - e ao invés de lembrarmos de nós.

Num exemplo, quando amamos alguém, não é a capacidade de amar que nos faz sorrir. É quem amamos que nos faz corar de alegria. E todos percebem que o sorriso em nosso rosto se deriva de outra pessoa, e isso flui tão naturalmente que sequer pensamos em dizer o quanto somos bons ao amar aquele a quem amamos. O outro se tornou mais importante nesses momentos.

É algo similar a isso que deveria acontecer conosco por aí, em relação a amarmos a Deus.

Tornar esse nosso amor a Ele, sempre insuficiente, algo tão sincero e verdadeiro que não consigamos esconder ou fazer sumir de nosso rosto. 

Portanto não há espaço para nos debruçarmos a abraçarmos o caos quando o dono e sustentáculo de todas as coisas já nos alcançou. E mesmo que o caos exista, aquilo que Ele nos ensinou era justamente ter bom ânimo quando momentos de aflição chegarem, quando o dia mal acinzentar a pigmentação de uma rotina que era mais leve.

Que ótimo momento para aprender de Cristo em meio ao caos. 

paredes coloridas

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 Hoje voltando do mercado me deparei com uma daquelas cenas onde cultivamos o silêncio contido entre sorrisos disfarçados. Um menininho que segurava a mão de outras duas menininhas enquanto caminhava pela calçada pra algum lugar, desenvolveu um diálogo bem instrutivo com a maior.

A menorzinha, quietinha de fala mas serelepe de resto, segurava o indicador do menino enquanto caminhava saltitando. Não dizia nada, pois todo o enredo se desenvolvia entre os mais velhos da ocasião.

- Olha, um monte de desenhos - disse a maiorzinha ao menino, se referindo ao grafite pintado no muro lateral de onde saíram. O menino, percebendo que sobre seus mirrados ombros pesava a responsabilidade de cuidar das meninas retrucou:

- Esses desenhos não são legais, eles sujam toda a cidade - argumentou.

- Mas eles são coloridos e ficam bonitos nos muros - pontuou a menina que não gostou quando o menino tentou fazê-la também segurar em seu indicador. Ele cedeu e, segurando-a pela mão, foi decisivo:

- Ei, em que ano você tá?

- Estou no segundo período

- Ah, entendi. Eu to no quarto período.

- Nossa, eu achei que você estava no terceiro ano.

- Não, eu já estou no quarto.

A discussão sobre o muro pintado foi superada num instante. Certamente o menininho percebeu que não seria interessante continuar uma discussão que a menininha não tinha conhecimento suficiente de alguma das aulas que ele teve nos últimos dois anos de estudo. 

Ele foi perspicaz. Direto ao ponto, e cessou a argumentação que lhe daria mais enfado caso continuasse. Ele tinha uma responsabilidade maior de conduzir as meninas, embora nem pra ele isso fosse tão claro, e a caminhada continuou refletindo o brilho da tarde ensolarada que decidiu Curitibar.

Eu já entendi várias coisas ao longo da minha caminhada, já estou no quarto ano da minha vida. Existe empatia com Cristo, com os princípios cristãos e com tudo o que uma vida contínua em Deus deve gerar em mim.

Mas ir direto ao ponto e evitar discussões desnecessárias é algo que, por vezes, não acontece. E nessas vezes eu começo a desenvolver toda uma estrutura de argumentação, pontuando tudo que se deve pontuar, e acabo querendo dizer tudo a pessoas que ainda estão na segunda série.

Digo isso totalmente consciente de que sou criança ainda, e discussões sobre muros pintados ainda são o máximo pra mim.

O que acontece é que, se fico rendido a essas discussões, deixo de aproveitar o calor e o brilho do Sol esquentando a minha mão e a mão dos que caminham comigo. Se me rendo a discussões tolas, ou fico frustrado com algumas formas imaturas e distorcidas de interpretar e viver a vida, acabo deixando o propósito maior de lado - o cuidado com a vida das pessoas ao meu redor, e que seguram a minha mão e pisam o mesmo caminho que eu.

Então diariamente tento ajustar a caminhada, para que nem o ritmo e nem o propósito da caminhada pare por causa de uma parede pintada.

artesão

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Se outrora estive néscio, fiz-me cego e pus-me surdo. Distribuía minhas convicções em trajetos regados pela insensatez. Caminhava por trilhas que não me conduziram a lugar nenhum. 

Os próprios vestígios, vastos, foram todos ignorados pela minha vasta ignorância. Mas a beleza e a bondade costurada em seus tecidos me puseram novamente em boa rota.

Suspirei em afagos mimosos quando, na volta, pude contemplar o artista pela sua arte. Não obstante, a arte que no início estava apenas lá, em silhuetas e movimentos distantes, foi paulatinamente tecida até aqui, de tal forma que me foi possível vê-la, toca-la, cheirá-la, tê-la, digerí-la...

Sê-la. 

Descobrí-me arte.

16 marços

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Quando eu acordei hoje, o Face me lembrou de alguns textos meus escritos exatamente em 16 de marços dos ultimos anos. Ironicamente (tenho vaga lembrança de que foi de propósito) todos eles abordam a mesma temática: a eternidade. Encontrei desde um texto mais profundo, onde tinha uma imagem clara de como a expectativa do que ainda não se há gera certo desejo de se ter, até uma poesia bem pessoal e sincera dedicada ao Eterno.

Por acaso essa semana eu compartilhei com certa pessoa (rç) algumas coisas observadas durante a vida, durante os tempos que voam quando se passa conversando com quem se gosta e sobre se perder nos ponteiros do relógio. Inclusive disse que iria escrever sobre isso, e não há data melhor para isso do que hoje.

Tenho certeza de que não raras vezes você passou por momentos assim: momentos que duraram muito no relógio, mas deixou uma sensação de ter sido tão pouquinho que você nem acreditou no final. Também já deve ter passado por outras situações onde os poucos segundos foram gigantes, como se naquele exato momento cada segundo tivesse durado uma eternidade.

Essas fisgadas temporais que acontecem são no mínimo curiosas. Revelam que existe alguma outra forma de ponderar sobre o tempo que não é tão precisa ou melhor, não é tão "daqui". Diante da regularidade da passagem do tempo - os milissegundos, os segundos, os minutos, as horas, os dias, etc. - nossa percepção tão enfaticamente acostumada bamboleia. Ela é cativada por algo que excede o maior e mais intacto rigor matemático.

É interessante observar, por exemplo, que experimentamos coisas análogas - que nos repelem do comum - quando experimentamos um pouco da bondade, um pouco de amor, um pouco de alegria e todas as coisas boas da vida. Jesus, um dia, confrontando um homem contaminado por suas próprias obras, disse que somente Deus é bom. Eu compreendo como Jesus, e sei que o fato de Deus ser totalmente bom se reflete na criação - por graça - de alguma forma.

Se somente Deus é bom, não há nenhum indício de bondade nascida em nós com base em nós mesmos. Se por acaso fazemos algo bom, isso é relfexo imediato da bondade do nosso criador - e não nossa. Podemos, portanto, experimetar aspectos da bondade de Deus indiretamente na criação (incluindo a humanidade). Isso não significa, porém, que nos saciaremos e conheceremos a plenitude de Deus através de coisas assim, mas certamente nos dão ao menos um senso incrível da bondade de Deus, e de como beber da fonte nos satisfaria totalmente, a ponto de repetir o que o pequeno Davi disse - O Senhor é o meu pastor e de nada mais tenho falta.

Isso não acontece só com a bondade, mas também com todos os outros atributos comunicáveis de Deus.

Eu creio que a eternidade não é um atributo incomunicável justamente por esses momentos onde podemos beber de algo análogo a eternidade. O tempo e o espaço existem nela. O ensino judaico, e alguns teólogos dos primeiros séculos, se referiram a isso como "geração uterina". É como se existisse um espaço criado na eternidade onde o próprio tempo foi codificado e a própria criação recebeu seus limites.

Daqui de dentro, porém, quando vivenciamos coisas lindas, acredito que conseguimos, metaforicamente, ouvir o eco da eternidade. É como se a verdade da eternidade que excede a própria existencia, o próprio espaço, o próprio tempo, a própria matéria, balbuciasse ao nosso espírito e doasse um pouquinho de si. Apenas uma gotinha, um respingar, uma ideiazinha tão pequena de como será a eternidade, que já redime ligeiramente nosso semblante. E como nossas feições e afeições precisam ser cotidianamente redimidas - creio que elas são.

Portanto, quando estiver conversando com alguém, fazendo algo, recebendo algo, e naturalmente acontecer aquele ausentar-se de si e desprendimento do tempo, lembre-se - talvez Deus tenha compartilhado com você um pouquinho da eternidade que ele quer te apresentar e te convidar para continuar sua existência lá. Enquanto isso, aproveite a existência desses fagulhos de eternidades, dessas pequenas doses de eternidade temporal.

#ps1: to sem tempo pra reescrever coisas que possam ter ficado não entendíveis ou ainda precariamente entendíveis, volte amanhã que esse texto estará melhor.

#ps2: eu amo tempos onde o tempo se destemporiza. ❤

breve olhar

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 Queria, do autor, não uma dedicatória exclusiva. Não uma citação de rodapé e nem um pormenor que indiretamente fizesse minhas referências. Não queria nada que me apontasse como seu objetivo, tampouco algo que me pusesse como objeto de suas ações ou intenções. 

Vê-lo me bastaria. Breves segundos para respirar vigorosamente antes que o ar me faltasse enquanto meus olhos sequer piscariam diante do ápice de seu mais pleno gozo. 

E se meu olhar fosse correspondido - num inundar de sua graça, sentiria a mais sublime sensação de ter minha alma violada pela verdade que jorra de seus olhos. Certamente eles inundariam os meus que copiosamente seriam voluvelmente enxarcados. Esgotariam minhas forças, esgotaria-me a razão, e meus hesitantes joelhos instantaneamente se renderiam ao pó. 

Todas as coisas preciosas demais para mim e que tiveram minha vida inteira de cuidado seriam sumariamente esquecidas, prontamente secundarizadas e decididamente abandonadas. 

Queria, do autor, não uma dedicatória exclusiva. Mas, nem que seja por um pequeno olhar, a simplória compreensão da pequena vida historiada em minha pequena porção.

mimimi

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Faz tempo que não dou as caras por aqui com alguma coisa que não se restrinja a devaneios poéticos. Mas lendo outras coisas que escancaram a doença da geração da qual faço parte, não consegui deixar de manifestar opinião sobre o assunto. É puramente perceptível o hedonismo consumido e vomitado por grande maioria de pessoas que se recusam em ponderar a mínima coesão das suas reflexões e inflexões. A busca doentia por felicidade e a demonização do sofrimento são base para as estruturas da atual hipersensibilidade social e sua adjunta incompetência para debates ideológicos.

Aos que libertinam suas práticas pessoais e tornam esse aparente "oásis" um ambiente sagrado, por exemplo, a simples discordância de ideias é altamente ofensiva. Acreditar que exista uma conduta moral mais adequada e incentivar esse posicionamento é motivo para ser amplamente rechaçado e coibido pelos hipersensíveis do século.

Crítica seria um elogio à toda prática de uma militância hedonista acéfala e preguiçosa de ofendidos que há algum tempo tem ganhado espaço. Digo isso com propriedade, pois dessa hipersensibilidade já bebi e já estive psicologicamente abalado por palavras ditas sobre mim e sobre o que acredito que não correspondiam a fatos. Pura imaturidade.

O berço de todos esses acontecimentos infantis é uma generalizada falta de profundidade em tudo, algo tão normal nos dias de hoje. Se hoje mal lemos uma matéria ou um livro completo, qual é a probabilidade do conhecimento acerca de nós mesmos ser amplo ou correto? Principalmente se passamos a vida nos dedicando mais a satisfação própria do que ao conhecimento próprio - a probabilidade desse conhecimento é mínima ou nenhuma.

E se não me conheço muito bem, fico sensível a qualquer definição que fazem de mim e a torno primariamente passiva de ser verdadeira. E ai daquelas definições que contradigam o pobre apanhado que construí na paupérrima definição que outorguei a mim como verdadeira. Isso sensivelmente me agride assustadoramente.

Em outras palavras, se ofendem aqueles que ouvem de si coisas que desagradem seus ouvidos e destoem do posicionamento pessoal pobre em que orbitam suas vidas. Mas vou continuar usando a primeira pessoa, pra não te ofender:

Logo, se não me conheço, me ofendo com possíveis verdades e com possíveis mentiras. Logo, se me conheço, sei o que são possíveis verdades e o que são possíveis mentiras, e em ambos os casos é impossível me sentir ofendido, porque de fato são verdades ou mentiras.

Ainda em outras palavras, só me sinto ofendido com algo se não sei quem de fato eu sou. E a geração de hoje (que sabe um pouco de tudo, mas desconhece ainda muito de tudo) não sabe nada de si, e se ofendem ligeiramente por qualquer coisa.

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E na sensata impotência de saber quem de fato eu sou por meus próprios - e falhos - meios, recorro a quem minunciosamente deu e dá o alívio amargo para todas as questões que já tive. Me despreocupo com a felicidade, me lanço irrestritamente à verdade, enfaticamente indefiro sobre o possível desconforto que inevitavelmente virá, para que minimamente eu consiga entender um pouco mais do Outro e então, por graça, de mim.

Menosprezo a mim mesmo, as minhas débeis e frágeis aspirações, para que de fato eu encontre algo que me sustente em todo o chaos de uma sociedade manobrada por qualquer coisa, manobrada por si mesmos.

E O tenho achado.

coragem

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Para ser cristão, digo do autêntico, você irrevogavelmente precisa ser corajoso. Afinal, a fé é o nível avançado da mais alta convicção. Não é suposição rasa e tampouco é satisfeita nos modelos imanentes de confiança. A fé do cristão autêntico tem sua porção transcendental bem característica, muito além da pura experiência pessoal possível. Embora seja totalmente enunciada pela razão não é capaz de ser contentada por ela. Apenas Cristo é capaz de nos bastar em correspondência à fé que emerge em nós nos termos mais profundos das nossas afetividades e ponderações. E quando Ele decide envolver-se, somos cooptados pelo inimaginável e ainda então invivido amor. Quem pode conhecer a mente do Senhor ou se tornar seu conselheiro?

Dar os passos nesse cenário certamente amputa quaisquer muletas onde normalmente descansamos nossas frustrações não resolvidas. A agonia de ser descartado irrefutavelmente do controle de tudo pode ser mortífera. E não acredito que essa observável característica seja desproposital ou simples coincidência. A abstinência de si mesmo promovida pela mensagem do evangelho aos autênticos cristãos gera os mais variados desconfortos que se pode imaginar. O erro até então enxergado há quilômetros de distância passa a ser medido em quadras, depois em metros, em centímetros até que somos desnudados em nossa própria insensatez e hipocrisia, e esse gosto não é nada doce aos nossos séquitos sentidos imaturos.

E nessa caminhada de fé, em meio ao caos da descoberta de quem realmente nunca deveríamos ter sido, cheio de ecos indecifráveis, começamos a contar os ruídos e marcar o ritmo até que tudo seja mansamente padronizado e sistêmico. A calma que impossivelmente viria de nós nos encontra em roupas de paz. Então as ondas descontroladas passam a escutar a frequência duma voz calma e mansa que novamente ordena, como no princípio. Quando as bagunças são expostas no mural das nossas mais nítidas impressões, elas deixam de ser acobertadas pela desculpa e podem então serem ajustadas e carregadas em justiça.

E a justiça toda ironicamente não atinge os injustos, mas é imputada apenas no justo, e através dele somos justificados.

O incômodo que o imerecimento nos causa esbraveja nossa mais escondida soberba e nosso mais acarinhado orgulho. Os desfaz. Nossas mais valiosas moedas recebem o aval de pó, e enfeitam o chão como a poeira enfeita as ruas. Vestígios de graça começam a ser mais palatáveis e notavelmente vividos em cada segundo de vida, e se continuarmos minimamente honestos com tudo eis que o novo simplesmente acontece.

Então a perda é ganho, a morte é vida, o sofrer é paz, a escuridão é clara, e o eu é d'Ele.

Haja coragem.
markinhos.com