paredes coloridas

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 Hoje voltando do mercado me deparei com uma daquelas cenas onde cultivamos o silêncio contido entre sorrisos disfarçados. Um menininho que segurava a mão de outras duas menininhas enquanto caminhava pela calçada pra algum lugar, desenvolveu um diálogo bem instrutivo com a maior.

A menorzinha, quietinha de fala mas serelepe de resto, segurava o indicador do menino enquanto caminhava saltitando. Não dizia nada, pois todo o enredo se desenvolvia entre os mais velhos da ocasião.

- Olha, um monte de desenhos - disse a maiorzinha ao menino, se referindo ao grafite pintado no muro lateral de onde saíram. O menino, percebendo que sobre seus mirrados ombros pesava a responsabilidade de cuidar das meninas retrucou:

- Esses desenhos não são legais, eles sujam toda a cidade - argumentou.

- Mas eles são coloridos e ficam bonitos nos muros - pontuou a menina que não gostou quando o menino tentou fazê-la também segurar em seu indicador. Ele cedeu e, segurando-a pela mão, foi decisivo:

- Ei, em que ano você tá?

- Estou no segundo período

- Ah, entendi. Eu to no quarto período.

- Nossa, eu achei que você estava no terceiro ano.

- Não, eu já estou no quarto.

A discussão sobre o muro pintado foi superada num instante. Certamente o menininho percebeu que não seria interessante continuar uma discussão que a menininha não tinha conhecimento suficiente de alguma das aulas que ele teve nos últimos dois anos de estudo. 

Ele foi perspicaz. Direto ao ponto, e cessou a argumentação que lhe daria mais enfado caso continuasse. Ele tinha uma responsabilidade maior de conduzir as meninas, embora nem pra ele isso fosse tão claro, e a caminhada continuou refletindo o brilho da tarde ensolarada que decidiu Curitibar.

Eu já entendi várias coisas ao longo da minha caminhada, já estou no quarto ano da minha vida. Existe empatia com Cristo, com os princípios cristãos e com tudo o que uma vida contínua em Deus deve gerar em mim.

Mas ir direto ao ponto e evitar discussões desnecessárias é algo que, por vezes, não acontece. E nessas vezes eu começo a desenvolver toda uma estrutura de argumentação, pontuando tudo que se deve pontuar, e acabo querendo dizer tudo a pessoas que ainda estão na segunda série.

Digo isso totalmente consciente de que sou criança ainda, e discussões sobre muros pintados ainda são o máximo pra mim.

O que acontece é que, se fico rendido a essas discussões, deixo de aproveitar o calor e o brilho do Sol esquentando a minha mão e a mão dos que caminham comigo. Se me rendo a discussões tolas, ou fico frustrado com algumas formas imaturas e distorcidas de interpretar e viver a vida, acabo deixando o propósito maior de lado - o cuidado com a vida das pessoas ao meu redor, e que seguram a minha mão e pisam o mesmo caminho que eu.

Então diariamente tento ajustar a caminhada, para que nem o ritmo e nem o propósito da caminhada pare por causa de uma parede pintada.

markinhos.com